Estabelecendo limites

Vamos falar de trabalho. Essa utopia do lugar da produtividade e da definição de si mesmo. O trabalho constrói, o trabalho define quem somos e do que somos capazes de ser. Essa utopia alcançou lugares distópicos na sociedade do cansaço. Já não basta o combinado minha força de trabalho em troca do dinheiro no final do mês. É preciso ampliar as horas trabalhadas, exceder limites, buscar atingir padrões inatingíveis ou até mesmo realizar um trabalho de Sísifo em busca do alinhamento perfeito. Brincar de escritório tem a ver com algo quase impalpável: qual é o propósito? O que queremos com tudo isso? E lá se vão egos e chefes disfuncionais que menos guiam e cuidam do seu rebanho e mais exercem o poder do controle e do estabelecimento de um padrão que nunca é suficiente. Mais uma vez me lembro daquela cena do cego guiando a multidão na jornada pelo deserto, metáfora mais que apropriada filmada pelo mestre Herzog. 

Temos horas, prazos, metas, objetivos, relacionamentos, jogos de poder, aprender a dizer sim enquanto sua potência criativa quer outra coisa. Separar trabalho da vida. Vivemos em espaços que adoecem, que causam rupturas e alterações de alma se não soubermos estabelecer limites. Qual é o limite entre um trabalho entregue no prazo curto e suficiente e o trabalho que não finaliza e rompe todo e qualquer prazo por conta de um desejo inconsciente de perfeição, de poder, de controle? 

Já sabemos que não existe trabalho perfeito, que o mito da colaboração entre pares é apenas um mito. No final, estamos todos atolados em nossas agendas e fantasias do que imaginamos o que deveria ser. Com sorte, conseguimos dar um check na lista do TO DOs e seguir para o próximo com a confiança inabalada. 

É a sociedade do desempenho que vai nos formatando sem dó nem piedade. Há que ser cada vez mais genial. Há que ser cada vez mais ousado. Há que ser cada vez mais do que ontem. E algumas migalhas são jogadas no meio do caminho para não perdermos o caminho da jaula, ou da casa de doces para alguns. 

Posso dizer que minha jornada profissional é turbulenta. Dei a sorte de ter chefes abusivos, que recitavam o mantra da produtividade, do desempenho e da meritocracia – o que envolve, por conseguinte, comparações. Nesse recorte de chefes, vale dizer que eram mulheres. Mulheres que consomem outras mulheres. Quando pude ser chefe, meu maior receio era cair nessa armadilha que é tão fácil de acessar. E enquanto parte da cadeia produtiva, vi minhas maiores inseguranças serem ampliadas, cultivei dúvidas sobre minhas capacidades e aprendi a ficar calada quando devia dizer com a força do diafragma NÃO. 

Então, estabelecer limites é o tema de hoje. Decidir quando se quer fazer parte do circo armado, assumir a máscara do palhaço branco/augusto ou contra-augusto. Limites não é algo dado ou acessível logo de cara para a pessoa, tem uma dose grande de autoconhecimento e autoestima envolvida. Até onde as coisas são como são e, portanto, aceitáveis, e onde cruzam aquela linha do impacto negativo no autoconceito e esfarelamento de valores. 

Minha relação com o trabalho sempre foi de entrega, com uma dose de vaidade pelo bem feito, pelo criativo, por conseguir produzir algo “novo”. Também com uma pitada competitiva, é verdade. A sociedade do desempenho começa na escola, em casa, na cultura. Com os anos vividos muda-se a ótica e é preciso desaprender muita coisa para entender como estabelecer limites consigo mesmo e com os outros. 

Então, o desafio continua (ao menos para mim): o que é suficiente? O que me satisfaz no trabalho? O que já é fronteiriço com a preservação de minha saúde mental? Como não deixar o trabalho invadir como um tsunami a minha vida? Como preservar meus interesses? 

Ainda não tenho muitas respostas a essas perguntas, mas já tenho perguntas. Compreendo que determinadas atitudes, palavras e comportamentos são abusivos. Entendo racionalmente que não posso colocar todas as dores do mundo na minha cesta de ovos. Só posso ter dois ou três ovos para chocar, é preciso escolhê-los muito bem. 

O trabalho não me define. O trabalho, para mim, é importante, mas não define quem eu sou, o que eu penso, como eu gostaria que o mundo fosse. O trabalho pode ser entendido entre aquele trabalho que envolve tempo versus ganhos financeiros e aquele outro que é mais íntimo, que tem um direcionamento da alma. Para o primeiro tipo, é preciso colocar limites claros: nada de autoexigência infinita e nem aceitar de bom grado a desvalorização do que é feito. Para o segundo tipo, permitir deixar-se levar pelo que é mais brilhante, pelo que é precioso e que nutre a própria vida. Esse é o trabalho nobre e que precisa ser cuidado para não se submeter ou desaparecer frente ao primeiro tipo.

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